por Renato Rosatti - renatorosatti@yahoo.com.br

“Grandes demônios do
inferno. Olhai pelos membros do círculo. Dê a eles o seu poder sobre a
humanidade. Nós, que nos dedicamos a servi-lo e a obedecê-lo, aceitamos a sua
orientação e o seu poder absoluto. Os monstros sem nome das profundezas o
chamam”. – Trecho de um ritual satânico



A consagrada e cultuada produtora
inglesa de filmes fantásticos “Hammer” foi a responsável pelo ressurgimento do
Horror no final da década de 1950, quando trouxe novamente às telas do cinema
os famosos monstros sagrados “Drácula”, “Criatura de Frankenstein”, “Múmia”,
“Fantasma da Ópera”, “Lobisomem”, entre outros, os quais haviam sido largamente
filmados em preto e branco pela saudosa produtora americana “Universal”, com
Boris Karloff, Bela Lugosi e Lon Chaney Jr. Porém, dessa vez com fotografia
colorida, foi produzida uma infinidade de clássicos como “A Maldição de
Frankenstein” (1957) e “O Vampiro da Noite” (1958), lançando atores que se
transformaram em ícones absolutos do gênero como Christopher Lee e Peter
Cushing.
O ápice de sucesso da “Hammer” foi
durante os nostálgicos anos 60, sendo que de uma forma inevitável suas
produções acabaram se desgastando com o passar dos anos, com poucas novidades e
uso exagerado de fórmulas repetitivas e clichês exaustivamente explorados,
perdendo o interesse do público e culminando com uma safra de filmes de menor
expressão a partir do início de 1970 até meados dessa década, com o fim das
atividades da produtora. Para tentar recuperar o prestígio perdido, a “Hammer”
procurou alterar a tradicional ambientação gótica de seus filmes de vampiros
transportando as ações para um tempo mais moderno, atualizado com a época da
produção, trocando os imponentes castelos, as pequenas e isoladas aldeias e as carruagens
pelos enormes prédios e automóveis da tumultuada vida urbana da Inglaterra dos
anos 70.
O primeiro exemplo dessa mudança de
estilo ocorreu em 1972 com o filme de título estranho “Drácula no Mundo da Mini
Saia” (Dracula AD 1972), seguido logo após por “Os Ritos Satânicos de Drácula”,
dirigido por Alan Gibson, misturando elementos de vampirismo com rituais
satânicos, um tema em moda e muito bem explorado na época com o clássico “O
Exorcista” (1973) e outros filmes similares abordando histórias de demônios e
ocultismo como “Balada Para Satã” (1971), “O Feiticeiro” (1972) e “O
Anticristo”, produção italiana de 1974.
Novamente com a dupla Christopher Lee e
Peter Cushing, respectivamente como o vampiro “Drácula” e o seu histórico
inimigo, o antropólogo Prof. Van Helsing, “Os Ritos Satânicos de Drácula” é o
oitavo filme com o personagem de uma longa série iniciada com “O Vampiro da
Noite”, e com Lee interpretando pela última vez para a “Hammer” o papel do
“príncipe das trevas” que o consagrou para sempre, transformando-o no principal
vampiro da história do cinema, juntamente com o lendário Bela Lugosi.


Dessa vez, a história traz o
malevolente vampiro “Drácula”, reencarnado na figura de um empresário
milionário chamado D. D. Denham (Christopher Lee), envolvido numa conspiração
satânica para tomar o poder no mundo. Um agente do serviço secreto britânico,
Hanson (Maurice O’Connell), está investigando as ações misteriosas de uma seita
demoníaca liderada pela sacerdotisa vampira Chin Yang (Barbara Lu Ying), que
realiza rituais de satanismo na imensa mansão “Pelham House” nos arredores de
Londres, um local de reuniões de um suposto grupo de pesquisas paranormais.
Porém, ele é capturado e brutalmente espancado e torturado, por descobrir que
os responsáveis pelos ritos de magia negra são poderosos cidadãos da sociedade
inglesa. Uma vez conseguindo escapar ele passa as informações da investigação
para seus superiores, o Inspetor Murray (Michael Coles) e Peter Torrence
(William Franklyn), que solicitam auxílio ao antropólogo Prof. Van Helsing
(Peter Cushing), renomado cientista especialista em ocultismo e vampirismo,
cuja missão histórica de sua família sempre foi a de caçar vampiros.
Eles descobrem uma trama diabólica
envolvendo um grupo seleto de importantes homens formado por um militar,
General Freeborne (Lockwood West), um empresário latifundiário, Lord Carradine
(Patrick Barr), um ministro do serviço de segurança, John Porter (Richard
Matthews), e um cientista, Prof. Julian Keeley (Freddie Jones), todos manipulados
pelo empresário D. D. Denham, o próprio Drácula, para espalharem um vírus letal
na humanidade e lançar o mundo num caos de destruição. Eles seriam os novos
“Quatro Cavaleiros do Apocalipse”, os emissários da peste negra que trariam a
morte para a civilização humana.
Após o sequestro de sua bela sobrinha
Jessica (Joanna Lumley), pelos capangas de Drácula, um grupo de motoqueiros
rebeldes típicos dos anos 70, com o objetivo de utilizá-la num ritual satânico
de sacrifício, o Prof. Van Helsing é obrigado a interferir e juntamente com o
Inspetor Murray tentar o resgate da
moça, sendo inevitável um confronto final com o histórico inimigo vampiro.
“Os Ritos Satânicos de Drácula” está
bem longe dos melhores da série de filmes de vampiros da “Hammer”, tendo como
principal referência o insuperável “O Vampiro da Noite”. A intenção de alterar
a ambientação para tempos mais modernos foi sem dúvida uma estratégia comercial
viável da produtora em decadência, mas ainda acho preferível os tradicionais
elementos góticos presentes nos filmes anteriores, como os fascinantes castelos
em ruínas à beira de penhascos, as árvores fantasmagóricas, os cemitérios
macabros, a assustadora névoa espessa da floresta, os pequenos vilarejos com
seus aldeões supersticiosos, e tudo aquilo que representa historicamente um
horror sobrenatural à espreita, escondido nas sombras e pronto para atacar
inesperadamente. A idéia de inserir rituais satânicos num mundo moderno também
é muito boa, mas funcionaria melhor se não tivesse relação com o tradicional
vampiro Drácula, na forma como foi idealizado pelo escritor Bram Stoker em sua
obra homônima de 1897.
Porém, a despeito desses pequenos
inconvenientes, o filme garante ótimos momentos de entretenimento destacando
algumas sequências interessantes como o momento onde Jessica é atacada por um
grupo de jovens e belas vampiras escravas de Drácula, que estavam aprisionadas
em seus caixões numa cripta próxima à mansão onde eram realizadas as missas
negras; a forte cena de agonia de um dos discípulos do “mestre das trevas”
quando foi infectado pelo vírus que causa o lento apodrecimento de seus
músculos, queimando sua pele em um terrível tormento, mergulhando na imensa dor
de feridas pútridas; e o esperado desfecho com o confronto final entre Drácula
e Van Helsing (o último duelo entre Christopher Lee e Peter Cushing em filmes
de vampiros pela “Hammer”, após 15 anos).
Em contrapartida, três falhas em “Os
Ritos Satânicos de Drácula” são bem notáveis. Uma é quando o Prof. Van Helsing
está preparando uma bala de prata para seu inimigo vampiro, e logo após fundir
o projétil num molde ele pega-o com as mãos para carregar seu revólver,
ignorando o fato que a alta temperatura do mesmo fatalmente queimaria seus
dedos. Outra situação forçada demais ocorre na cena quando Van Helsing
reconhece a real identidade do empresário D. D. Denham, numa série de diálogos
e atitudes inverossímeis, onde fica claro que o roteirista não se preocupou em
desenvolver uma sequência mais inteligente e criativa. E por fim, faltou uma lógica
para a atitude de Drácula em querer espalhar um vírus devastador na humanidade,
pois dessa forma ele dizimaria todo o planeta eliminando a sua própria fonte de
alimento que é o sangue de suas vítimas, parecendo que foi um ato de auto
destruição por estar cansado da maldição de viver eternamente em seus
incontáveis ciclos de morte e renascimento. Drácula é um ser poderoso e
imponente e o roteirista foi infeliz em evidenciar sua covarde intenção de
acabar com tudo, inclusive ele próprio.
Mas o roteiro de Don Houghton também
está repleto de ótimos momentos de puro horror, exaltando a supremacia do Mal
absoluto e dando ênfase à decadência total da humanidade, envolvida na paranóia
de sua própria irracionalidade. Como por exemplo nas antológicas palavras
depressivas do atormentado Professor Keeley, especialista em doenças do sangue,
ao seu amigo de ciências, o antropólogo Van Helsing, tentando justificar sua
atitude de desenvolver e aperfeiçoar um vírus letal similar à peste bubônica ou
“morte negra” que arrasou a humanidade no passado, e que seria utilizado para
contaminar o mundo e espalhar a morte no planeta:
“O mal comanda. É verdade. O mal e a violência são as
únicas medidas poderosas. Olhe para o mundo, um caos. É um padrão pré-ordenado.
Violência, ganância, intolerância, aversão, culpa. Os pecados mortais. Ou
virtudes mortais. O ser supremo é o Diabo. Obedeça-o e ganhará a imortalidade.
Ele acaba com a morte, o inimigo comum. Nada é suficientemente vil, nada é tão
repulsivo, tão horrível. Você precisa conhecer o terror, o horror. Precisa
sentir a maravilha da repugnância, a beleza da obscenidade.”
Ou ainda na mórbida definição descrita
pelo cientista Van Helsing, ao se referir ao temível Conde Drácula:
“A força real é mais sinistra, mais obscena do que
qualquer monstruosidade que imaginam. Lorde da Corrupção. Mestre dos
Mortos-Vivos. O Conde Drácula.”
Christopher Lee aparece apenas em
poucas cenas, mas ainda assim sua presença é marcante encarnando o imortal e
amaldiçoado vampiro “Drácula”. Ele, que em seus 80 anos de idade e mais de 300
filmes no currículo, ainda está na ativa e participando como vilão de duas das
mais expressivas franquias do cinema de entretenimento do momento, “Star Wars”,
como o Conde Dookan, e “O Senhor dos Anéis”, interpretando o mago Saruman.
O ator inglês Peter Cushing faleceu em
1994 aos 81 anos de idade após participar de quase 100 filmes, e em sua vasta
carreira no cinema as performances mais notáveis foram no gênero fantástico,
onde acabou recebendo dos críticos e fãs o nobre título de “O Cavalheiro do
Horror”, devido a sua natural postura aristocrática. Um de seus papéis mais
significativos foi justamente como o famoso caçador de vampiros “Prof. Van
Helsing”, personagem que encarnou inúmeras vezes, e que acabou associando-se a
sua imagem.
“Os Ritos Satânicos de Drácula” recebeu
o título original de “The Satanic Rites of Dracula” para lançamento nos Estados
Unidos, sendo que na Inglaterra seu nome foi “Count Dracula and His Vampire
Bride”. E, sem dúvida nenhuma, o nome americano é bem melhor e mais coerente
com a história do filme, que mescla basicamente vampirismo com satanismo.
Como curiosidade, vale confirmar os
tradicionais meios descritos no filme para se matar um vampiro, os quais já são
bem conhecidos pelos fãs: símbolos do Bem combatem a força do Mal, como a cruz,
e a palavra de Deus escrita na bíblia, a água pura e corrente que simboliza
pureza, uma bala de prata, uma estaca de madeira no coração, a luz do dia, e os
espinhos dos arbustos.
A data escolhida por Drácula para
disseminar o vírus da peste negra na humanidade foi um especial dia 23, na
comemoração do sabá dos mortos-vivos. Segundo o filme, existem círculos
satânicos que governam nossa fé e regem o universo. Através da história da
humanidade, existiram certas datas onde houveram grandes catástrofes, e uma vez
estudadas por especialistas chegou-se à conclusão que existe um padrão definido
descrevendo que os grandes desastres sofridos pela raça humana ocorreram nos
períodos onde os círculos satânicos se cruzavam. No século XX houveram duas
guerras mundiais e o dia 23 do mês sabático é a satânica celebração da
blasfêmia suprema, o sabá dos mortos-vivos, a data ideal para o
apocalipse.
“Grandes demônios do inferno. Olhai por seus discípulos.
Dê-lhes poder sobre a humanidade. Nós que nos dedicamos a servi-lo e
obedecê-lo. Com esse batismo de sangue seguiremos os passos eternos dos
amaldiçoados para conhecer os segredos dos que atravessaram a fronteira do
desconhecido até as margens do ódio.”
Os Ritos Satânicos de Drácula (The Satanic Rites of Dracula / Count
Dracula and His Vampire Bride, Inglaterra, 1973). Hammer. Duração: 88 minutos.
Lançado no mercado brasileiro de vídeo DVD pela Revista Dark Side (Editora
MultiMedia Group). Direção de Alan Gibson. Roteiro de Don Houghton, baseado em
personagem criado por Bram Stoker. Produção de Roy Skeggs. Fotografia de Brian
Probyn. Edição de Chris Barnes. Música de John Cacavas. Maquiagem de George
Blackler. Efeitos Especiais de Les Bowie. Elenco: Christopher Lee (Conde
Drácula / D. D. Denham), Peter Cushing (Professor Lorrimer Van Helsing), Joanna
Lumley (Jessica), Michael Coles (Inspetor Murray), William Franklyn (Peter
Torrence), Freddie Jones (Professor Julian Keeley), Richard Vernon (Mathews),
Patrick Barr (Lord Carradine), Barbara Lu Ying (Chin Yang), Lockwood West
(General Freeborne), Richard Matthews (John Porter), Maurice O’Connell
(Hanson), Valerie Van Ost (Jane), Peter Adair (Doutor), Maggie Fitzgerald /
Pauline Peart / Finnuala O’Shannon / Mia Martin (garotas vampiras), John Harvey
(Comissário), Marc Zuber, Paul Weston, Ian Dewar, Graham Rees (guardas da
mansão). Filmado na EMI/MGM Elstree Studios, Boreham Wood, Hertfordshire,
Inglaterra.
“Pelos seis mil terrores do inferno são batizados. É chamado, em
nome dos monstros das profundezas. Sete senhores das trevas amaldiçoados. Sete
vezes amaldiçoados de novo, para enfrentar o senhor dos homens e da bondade.”