O CONDE DRÁCULA
por Renato Rosatti - renatorosatti@yahoo.com.br

O escritor irlandês Bram Stoker
(1847-1912) foi o autor de uma das obras mais filmadas na história do cinema.
Seu livro “Drácula”, lançado em 1897, contando a história de um terrível
vampiro, tornou-se fonte de inspiração para a produção de centenas de filmes,
com destaque para o clássico homônimo de 1931 da “Universal”, com o ator
húngaro Bela Lugosi interpretando o conde vampiro, e para o igualmente clássico
de 1958 da produtora inglesa “Hammer”, intitulado “The Horror of Dracula” (no
Brasil, “O Vampiro da Noite”), com o ator inglês Christopher Lee no papel
principal.
Bela Lugosi e principalmente
Christopher Lee são considerados os atores que melhor encarnaram o vampiro
Drácula e seus nomes foram consagrados ficando eternamente ligados a esse
famoso personagem do horror. E juntamente com outros nomes importantes como
Boris Karloff, Peter Cushing e Vincent Price (e em menor escala, John Carradine
e Donald Pleasence), tornaram-se ícones insuperáveis do cinema fantástico.
A produtora inglesa “Hammer” foi a
responsável pelo ressurgimento do cinema de horror no final da década de 1950 e
principalmente ao longo dos anos 60 até meados de 70. Entre as dezenas de
filmes significativos do gênero, destaca-se a série de produções sobre
vampirismo, especialmente com o personagem Drácula. Iniciando com “O Vampiro da
Noite” em 1958, vieram depois “As Noivas do Vampiro” (Brides of Dracula, 60),
“Drácula: O Príncipe das Trevas” (Dracula: Prince of Darkness, 66), “Drácula, O
Perfil do Diabo” (Dracula Has Risen From the Grave, 68), “Sangue de Drácula”
(Taste the Blood of Dracula, 70), “O Conde Drácula” (Scars of Dracula, 70),
“Drácula no Mundo da Mini Saia” (Dracula AD 1972, 72), e “Os Ritos Satânicos de
Drácula” (The Satanic Rites of Dracula, 73). Todos os filmes, com exceção de
“As Noivas do Vampiro”, foram estrelados por Christopher Lee como o temível
vampiro sugador de sangue.

“O Conde Drácula” é o sexto filme da
série, e o quinto com a participação de Christopher Lee. Considerado um dos
mais violentos da saga inglesa de Drácula, foi dirigido por Roy Ward Baker,
responsável também por outros filmes importantes da “Hammer” como “Uma
Sepultura na Eternidade” (67), “Os Amantes Vampiros” (70) e “O Médico e a Irmã
Monstro” (71), e também da rival “Amicus” como “Asilo Sinistro” (72), uma
antologia com episódios escritos por Robert Bloch (autor de “Psicose”).
O roteiro de John Elder (na verdade,
pseudônimo de um executivo da “Hammer”, Anthony Hinds), conta mais uma história
dentro do universo ficcional de “Drácula”. O filme inicia com a ressurreição do
vampiro, que estava transformado em cinzas, através do contato com o sangue de
um morcego. Uma vez de volta à vida, o eterno “Príncipe das Trevas” Drácula
(Christopher Lee) continua a matar as belas jovens do vilarejo vizinho de seu
imponente castelo gótico, sugando-lhe o sangue pelo pescoço. Revoltados, os
aldeões se reúnem e invadem o castelo ateando fogo na enorme estrutura de
pedra, imaginando terem destruído o conde.

Porém, ele escapa da tragédia e
auxiliado por seu servo Klove (Patrick Troughton), ele recebe a visita
inesperada em seu castelo de um jovem encrenqueiro, Paul Carson (Christopher
Matthews), que estava fugindo da polícia de uma cidade próxima chamada
Kleinenberg. Paul havia se envolvido num romance proibido com a filha do
burgomestre local (Bob Todd) e estava sendo caçado por dois policiais (Toke
Townley e David Leland). Chegando no vilarejo próximo ao castelo de Drácula,
ele é bem recepcionado por Julie (Wendy Hamilton), empregada de uma hospedaria,
mas é expulso pelo proprietário (Michael Ripper), indo parar involuntariamente
no ainda imponente castelo, mesmo depois de avariado pelo incêndio do passado.

Paul é recepcionado por uma das
escravas vampiras de Drácula, a bela Tania (Anouska Hempel), e logo torna-se
prisioneiro e vítima do conde das trevas. Preocupados com seu desaparecimento,
seu irmão mais novo Simon (Dennis Waterman) e a noiva Sarah (Jenny Hanley)
partem a sua procura e chegando ao vilarejo são orientados pelo padre local
(Michael Gwynn) para seguir até o castelo, onde serão ajudados pelo servo Klove
(que nutre um sentimento platônico pela bela Sarah), e conhecerão não só a
cordialidade e o cavalheirismo típicos de Drácula, como também a sua fúria
assassina e sede de sangue, enfrentando um confronto mortal com o vampiro.
Algumas cenas são bem violentas,
principalmente considerando-se a época da produção, destacando a carnificina
realizada dentro de uma igreja, onde várias mulheres foram brutalmente
assassinadas por morcegos sanguinários, com direito a olhos vazados, e rostos
totalmente dilacerados pelas mordidas dos animais vampiros. Outro momento de
forte apelo em termos de horror foi o assassinato da escrava Tania por seu
mestre Drácula através de violentos golpes de faca, e seu posterior
esquartejamento para dissolver seus orgãos em ácido, numa ação macabra do
escravo Klove utilizando cutelos e serras para desmembrar o corpo da bela
mulher. Hoje em dia, ocorrem banhos de sangue infinitamente superiores em diversos
filmes de horror explícito, porém há mais de 30 anos atrás mesmo uma cena
discreta de esquartejamento causava um impacto impressionante no público.
Os efeitos especiais são extremamente
precários, típicos de uma produção de baixo orçamento. Os enormes morcegos de
olhos vermelhos, que possuem importante influência na história, são
notavelmente criaturas artificiais, onde podemos visualizar sem grande esforço
as cordas que os sustentam nos vôos. Mas o castelo em compensação é uma típica
fortaleza gótica de pedra construída no alto de um penhasco, em interessantes
cenários que recriam essas imponentes estruturas do passado.
Porém, o maior
destaque realmente é a presença macabra de Christopher Lee como Drácula,
encarnando magistralmente o vampiro da noite, dizendo poucas palavras e
priorizando as expressões faciais, com seus olhos vermelhos de sangue
reproduzindo o ódio e o mal absolutos. O ator, nascido em 1922, ficou
mundialmente conhecido e imortalizado por seus diversos papéis de vilão,
principalmente na pele do Conde Drácula. Sua filmografia é vasta e variada, com
centenas de filmes em seu currículo, sendo eleito em 2001 com um dos atores com
mais participações, entrando para o cobiçado livro “Guinness” de recordes
mundiais. Destacam-se em sua carreira os filmes de horror, como a série de
vampiros da “Hammer”, além de outros como “A Maldição de Frankenstein” (57), “A
Górgona” (64), “A Maldição do Altar Escarlate” (68), “O Ataúde do Morto-Vivo”
(69), “A Casa que Pingava Sangue” (70), “A Essência da Maldade” (73), “O Homem
de Palha” (73), “O Expresso do Horror” (73), “Uma Filha Para o Diabo” (76), e
“A Mansão da Meia-Noite” (83), a maior parte ao lado de Peter Cushing, outro
ícone do horror. Em 1996, Lee foi merecidamente escolhido para apresentar um
especial produzido para a televisão comemorando o centenário do cinema de
horror, dividido em 14 capítulos. Ele também foi o único ator a interpretar
todos os mais importantes personagens do cinema fantástico: desde a criatura de
Frankenstein, o vampiro Drácula, passando pela Múmia, o vilão Fu Manchu, até o
famoso detetive Sherlock Holmes. Christopher Lee ainda está na ativa, com seus
80 anos de idade, e atravessando mais um momento mágico em sua carreira, tendo
o privilégio de ser homenageado por vários cineastas importantes como Tim
Burton, participando do seu excepcional “A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça” (99),
ou George Lucas, que lhe deu o papel do vilão Conde Dookan / Darth Tyranus em
“Star Wars: Episódio II – Ataque dos Clones” (2001), ou ainda Peter Jackson, com
sua participação no papel do vilão mago Saruman na fantástica trilogia “O
Senhor dos Anéis”, baseada na obra homônima de J. R. R. Tolkien.
O Conde Drácula (Scars of Dracula, Inglaterra, 1970).
Hammer Films. Direção de Roy Ward Baker. Roteiro de John Elder (pseudônimo de
Anthony Hinds, produtor da Hammer), baseado em personagem criado por Bram
Stoker. Produção de Aida Young. Fotografia de Moray Grant. Direção de Arte de
Scott MacGregor. Edição de James Needs. Efeitos Especiais de Roger Licken.
Maquiagem de Wally Schneidermann. Música de James Bernard. Elenco:
Christopher Lee, Dennis Waterman, Jenny Hanley, Christopher Matthews, Patrick
Troughton, Michael Gwynn, Michael Ripper, Wendy Hamilton, Anouska Hempel, Delia
Lindsay, Bob Todd, Toke Townley, David Leland, Richard Busk, Margo Boht, Clive
Banie. Cores, 96 minutos,
lançado no mercado brasileiro de vídeo DVD pela Revista Dark Side (Editora
MultiMedia Group).