
DRÁCULA: O PRÍNCIPE DAS TREVAS
por Renato Rosatti - renatorosatti@yahoo.com.br
“Depois de um reinado de pavoroso
terror que durou mais de um século, o rei dos não mortos é finalmente acuado em
seu covil no alto das montanhas. Durante décadas, muitos pensaram em
destruí-lo, todos fracassaram. Agora, finalmente havia um homem com
conhecimento suficiente dos métodos do vampiro para provocar a destruição final
e absoluta... Este foi o seu destino. Milhares haviam sido escravizados pelo
culto do vampirismo. Agora, a própria fonte maior merecia o império. Só ficava
a lembrança. A lembrança da mais maligna e terrível criatura que já marcou na
civilização.”
Com
essa introdução narrada inicia-se o terceiro episódio de Drácula da série
produzida pela “Hammer” que totalizou oito filmes. Trata-se de “Drácula: O
Príncipe das Trevas” (1966), que apesar de ser cronologicamente o terceiro, se
encaixaria melhor como o segundo filme, pois é uma continuação do clássico “O
Vampiro da Noite” (58), tanto que a narração acima é ilustrada com a sequência
final envolvendo um duelo mortal entre o Conde Drácula (Christopher Lee) e seu
inimigo Prof. Van Helsing (Peter Cushing) no filme que deu origem à saga do
vampiro. E também o segundo filme cronológico da série, “As Noivas do Vampiro”
(60), não tem a participação de Lee como Drácula.
Na história, dois casais ingleses em
férias estão viajando pelo leste europeu, nos Montes Cárpatos. São eles,
Charles Kent (Francis Matthews, de “A Vingança de Frankenstein”, 58), sua
esposa Diana (Suzan Farmer, de “Morte Para Um Monstro”, 65), além do irmão de
Charles, Alan Kent (Charles Tingwell) e a esposa Helen (Barbara Shelley, de “A
Górgona”, 64). Quando eles estão próximos da cidade de Carlstad, são
estranhamente abandonados no meio da estrada cercada por uma densa floresta,
onde o assustado cocheiro da carruagem em que viajavam alegava que a partir
daquele trecho ele não seguiria mais em frente. Confusos com a atitude suspeita
do condutor de seu transporte, os turistas são obrigados a caminharem sozinhos
e encontram um castelo imponente escondido no alto de uma montanha. Sem opção
de estadia, eles decidem ir até lá.
Chegando
no castelo, os forasteiros são muito bem recepcionados por um sinistro mordomo
chamado Klove (Philip Latham), que revela que o proprietário é o Conde Drácula
(Christopher Lee), morto há dez anos, mas que deixou recomendações para que o
castelo esteja sempre preparado para receber hóspedes. Apesar de acharem toda a
situação bastante estranha e insólita, os viajantes ingleses não encontram
outra opção a não ser aceitarem a boa hospitalidade e passarem a noite na
imensa construção de pedra. Porém, durante a noite começam a ocorrer fatos
misteriosos como o desaparecimento de Alan, cujo sangue em contato com as
cinzas de Drácula serviu para permitir seu renascimento, fazendo-o voltar a
caminhar entre a humanidade, novamente em busca de sangue para saciar sua sede
insaciável. Os estrangeiros são agora obrigados a lutarem por suas vidas,
recebendo apenas a ajuda do Padre Sandor (Andrew Keir, de “Sangue no Sarcófago
da Múmia”, 71), um religioso caçador de vampiros que os acolhe em seu mosteiro.
Porém, Drácula, auxiliado pelo escravo
Klove, parte em busca do sangue e beleza jovial de Diana, indo ao seu encontro
no mosteiro. Lá, o vampiro recebe a ajuda de outro servo enfeitiçado, Ludwig
(Thorley Walters), que tem o incomum hábito de comer moscas. Mas é obrigado a
retornar para o castelo antes do amanhecer e o Padre Sandor e o jovem Charles
partem em seu encalço para tentarem destruí-lo antes que ele se refugie na segurança
de sua tumba escura.
“Drácula: O Príncipe das Trevas” possui
todos os elementos típicos dos melhores e mais interessantes filmes dos anos 60
da “Hammer”. Não faltam os aldeões pouco hospitaleiros e supersticiosos, uma
floresta fantasmagórica, um castelo imponente de arquitetura gótica,
forasteiros curiosos e um destemido caçador de vampiros (onde dessa vez o papel
ficou para o Padre Sandor). Aqui, vale um comentário: apesar da interpretação
segura e marcante de Andrew Keir (mais conhecido como o Prof. Quatermass de
“Uma Sepultura na Eternidade”, 67), acredito que o resultado seria ainda melhor
caso Peter Cushing retornasse como o temível Prof. Van Helsing de “O Vampiro da
Noite”. Fico imaginando como seria esse novo confronto entre ele e Drácula, pois
em toda a série eles somente voltaram a se enfrentar nos últimos dois filmes,
“Drácula no Mundo da Mini Saia” e “Os Ritos Satânicos de Drácula”.
Outro fato notável é que o filme
procura respeitar aquelas características tradicionais do vampirismo, pois num
determinado momento o Padre Sandor explica para o jovem inglês Charles alguns
dos segredos que envolvem as criaturas da noite, dizendo que somente podem ser
destruídos (na verdade, já estão mortos) através de uma estaca cravada no
coração, ou pela ação devastadora da luz do sol, ou pelo afogamento em água
corrente, além de que eles se queimam ao contato com cruzes e crucifixos,
sentem repulsa ao alho, e somente podem entrar num ambiente se forem
convidados.
O
filme foi lançado em DVD no Brasil em Outubro de 2002 com distribuição em banca
de jornais, encartado na revista “Dark Side DVD”, Ano 1, Número 1. Entre os
materiais extras temos um trailer e um vídeo amador mostrando os bastidores do
filme, ambos sem legendas em português. Esse vídeo foi produzido com uma câmera
caseira por Paul Shelley e traz comentários dos atores Christopher Lee, Barbara
Shelley, Suzan Farmer e Francis Matthews, que se reuniram em 23/02/97 para
assistirem as filmagens dos bastidores e gravarem seus depoimentos e
impressões.
“Drácula:
O Príncipe das Trevas” também recebeu vários outros nomes alternativos
originais como “Disciple of Dracula”, “Revenge of Dracula”, “The Bloody Scream
of Dracula” e “Dracula 3”. Este último nome foi criado em função de ser o
terceiro filme da série com o vampiro Drácula da “Hammer”, precedido por “O
Vampiro da Noite” (Horror of Dracula, 58) e “As Noivas do Vampiro” (The Brides
of Dracula, 60), e sucedido por mais cinco filmes, “Drácula, O Perfil do Diabo”
(Dracula Has Risen From the Grave, 68), “O Sangue de Drácula” (Taste the Blood
of Dracula, 70), “O Conde Drácula” (Scars of Dracula, 70), “Drácula no Mundo da
Mini Saia” (Dracula AD 1972, 72), e “Os Ritos Satânicos de Drácula” (The
Satanic Rites of Dracula, 73). Em todos os filmes o papel do temível sugador de
sangue foi de Christopher Lee, com exceção de “As Noivas do Vampiro”, onde o
vilão foi o Barão Meinster, interpretado por David Peel.
Aliás,
Lee não gostou do roteiro de “Drácula: O Príncipe das Trevas”, que foi escrito
por Jimmy Sangster (creditado como John Sansom), a partir de uma história do
produtor Anthony Hinds (sob o pseudônimo de John Elder). Tanto que para evitar
a possibilidade de uma repercussão insatisfatória de seu personagem, ele pediu
que sua participação fosse silenciosa, ou seja, o vampiro não diz uma única
palavra no filme inteiro, apenas atuando com expressões faciais, e somente
entrou em cena após quase cinquenta minutos de história. Um outro fato curioso
foi que para economizar nos custos de produção, a “Hammer” filmou tanto
“Drácula: O Príncipe das Trevas” como “Rasputin: O Monge Louco” (Rasputin: The
Mad Monk) mais ou menos ao mesmo tempo, utilizando os mesmos cenários e o
elenco principal, onde Christopher Lee, Barbara Shelley, Suzan Farmer e Francis
Matthews atuaram em ambos os filmes.
“Drácula: O Príncipe das
Trevas” (Dracula: Prince of Darkness, Inglaterra, 1966). Hammer. Duração:
90 minutos. Direção de Terence Fisher. Roteiro de Jimmy Sangster (creditado
como John Sansom), a partir de história de Anthony Hinds (creditado como John
Elder). Produção de Anthony Nelson Keys. Fotografia de Michael Reed. Música de
James Bernard. Edição de Chris Barnes. Desenho de Produção de Bernard Robinson.
Direção de Arte de Don Mingaye. Elenco: Christopher Lee (Drácula),
Barbara Shelley (Helen Kent), Andrew Keir (Padre Sandor), Francis Matthews
(Charles Kent), Suzan Farmer (Diana Kent), Charles Tingwell (Alan Kent),
Thorley Walters (Ludwig), Philip Latham (Klove), Walter Brown, George
Woodbridge, Jack Lambert, Philip Ray, Joyce Hemson, John Maxim.


