Olá, amigos do Adorável Noite e amantes do sobrenatural!
Já sentiram as chamas da vingança clamando
em seu peito?
Pensei em comemorar o Dia das Bruxas
partilhando com vocês uma história especial...
Convido-os a uma arrepiante leitura.
Possuída pelas trevas
Flávia Muniz
1. A invocação
O lugar era úmido e sombrio. Nenhuma
janela, nenhum respiradouro. Apenas uma escada empoeirada subia em direção ao
teto, onde havia o alçapão. Um forte cheiro de ervas impregnava o ambiente,
tornando o ar denso, opressivo.
O misterioso ritual teve início. Lailah acendeu as velas num gesto metódico e
reverente. O brilho amarelado espalhou-se pelo aposento inundando as paredes
descoradas. Em seguida, caminhou com pés descalços até o meio da sala. Riscou o chão de pedra com sal e areia
enquanto murmurava estranhas palavras. Em seguida, saltou para o interior do
círculo desenhado, onde permaneceu imóvel, aguardando que a energia a
envolvesse.
Ainda tinha esperanças de se salvar. Sua
intuição lhe dizia que em breve alguém seria enviado. Alguém especial. E tudo, então, ficaria bem.
Lailah fechou os olhos e aspirou ao aroma
adocicado que exalava de seu corpo nu. Procurou se concentrar, invocando o poder maligno em suas vibrações.
Sentia-se ávida, sedenta de maldade.
Aproximava-se o entardecer. A hora do encantamento...
2. Suspeita
Mariana esperou pacientemente o telefone
tocar. Após várias chamadas, uma voz conhecida atendeu.
-- Alô.
-- Renato?
Um silêncio constrangedor brotou de
repente do outro lado da linha.
-- Você... de novo? - ele disse num tom contrariado.
-- Queria desejar um último boa-noite -
explicou-se Mariana, tentando disfarçar seu propósito.
Ela podia sentir no silêncio a tensão
crescente no modo como ele respirava. Renato ficava fulo ao perceber a mais
leve desconfiança nas atitudes da namorada.
-- Mariana, você não está tentando me
controlar, está?
-- Claro que não, imagine! Sábado é o
aniversário da minha prima e...
Ela falava depressa quando mentia.
-- Sábado? - ele a interrompeu,
bruscamente - E você precisa me dizer isso hoje? Agora? Temos a semana inteira
pra falar da p... do aniversário da sua prima!
-- Desculpe - ela disse, sem jeito.
-- Estou tentando estudar, você sabe. Se
continuar ligando a cada quinze minutos, eu vou me danar na prova de amanhã.
Deu pra entender?
Ultimamente ele andava estúpido,
mal-humorado, agressivo. Parecia até não gostar mais dela.
-- Está tudo bem, Renato? - Mariana
insistiu, esperando que ele entendesse o tom da pergunta.
-- Ahhhhhhhhh, eu não agüento!
O clique deixou-a atônita. Ele
simplesmente desligara. Mariana sentiu os olhos encherem-se de lágrimas. Quase
três anos de namoro! Ela não merecia ser tratada daquela maneira indelicada.
Renato era alguém importante em sua
vida. Com ele vivera as primeiras emoções, o primeiro beijo, o primeiro...
tudo! E, além disso, ela acreditava no verdadeiro amor. No amor que era para
sempre.
Respirou fundo e procurou controlar-se
para não dar asas à imaginação. Deitou-se e desligou a luz do abajur. Afinal,
ele podia mesmo estar preocupado com as notas da faculdade...
Ou não?-
sussurrou uma voz em sua mente.
3. Espertezas
Renato escolheu a camisa amarela e a calça
preta. Ficava muito bem naquela roupa, com ar descolado, de meninão esperto.
Vestiu-se rápido, pois já eram quase 9 da noite. Se não fossem as ligações já
estaria pronto há horas! Penteou o cabelo e passou perfume. Olhou-se no
espelho. Estava um gato! Pegou o blusão, as chaves do carro e desceu as escadas
correndo.
Seus pais estavam jogando cartas na sala.
-- Estou de saída - avisou.
-- Aonde vai tão bonito? - quis saber a
mãe.
-- É segredo - ele respondeu com um
sorriso maroto.
-- Coisas de homem, não é meu filho? -
aprovou o pai dando uma piscada maliciosa.
Antes que eles fizessem mais perguntas
Renato escapou pela porta.
-- Fui!
Após um minuto de silêncio, a mãe disse:
-- Não gosto dessa atitude.
-- Ora, ele é apenas um rapaz tentando se
divertir - retrucou o pai.
-- Eu sei, mas acontece que Mariana é uma
ótima garota. E eles já namoram firme...
-- E o que tem isso? Ele tem apenas vinte
anos! O que você quer? Casá-lo? - e riu com a própria observação espirituosa.
-- Eu só sei que não se brinca com os
sentimentos dos outros. Mariana parece gostar muito dele.
-- Quanta bobagem! - riu-se o pai - Essas
meninas de hoje não se dão ao respeito...
-- Que machismo! E sabe do que mais?
-- O que?
-- Bati
com canastra real!
4. A outra
Claúdia já estava pronta. Sacudiu o cabelo
e olhou-se no espelho. Era uma morena de bom tamanho. Bonita e sedutora. Colega
de classe de Renato. E havia caído nas graças dele, que era sexy, inteligente e
muito interessante.
Andavam se encontrando há alguns meses e,
a cada vez que se viam uma energia poderosa brotava entre eles. Pura química.
Parece que tinha uma namorada... Mas quem
se importava? O que ela desejava mesmo era se divertir!
O toque da buzina despertou-a dos
devaneios. Ele chegara.
Ao abrir a porta do carro, sentiu a
adrenalina percorrer seu corpo.
5. Pesadelos
Ela andava vagarosamente por um corredor
escuro, tateando, à procura de algo que lhe guiasse os passos. À medida que
avançava, uma terrível sensação a invadiu. Não estava sozinha. Reteve a
respiração por um momento, os olhos fixos em algum ponto das trevas. Algo se
arrastava em sua direção, tinha certeza. Em pânico, começou a andar mais
depressa, depois a correr. Queria fugir dali. Porém o corredor parecia nunca ter fim, e seus movimentos
eram mais lentos do que desejava.
Antes que pudesse perceber o que lhe acontecia,
seus pés tocaram algo no chão. Um líquido denso, pegajoso... e quente.
Abaixou-se e tateou à procura de confirmação. Já sabia a resposta: era sangue. Começou a gritar. E foram
seus próprios gritos que a despertaram.
Aterrorizada, Mariana sentou-se na cama, a
camisola molhada de suor. Os pesadelos haviam voltado.
Ela acendeu a luz do abajur, como coração
batendo depressa no peito. Será que algo terrível havia acontecido a Renato?
Será que ele estava bem? E se fosse um aviso? Precisava checar, saber se tudo estava bem. Olhou no relógio e
conferiu as horas. Madrugada. Pegou o telefone e discou para sua melhor amiga.
Após o segundo toque, alguém atendeu com voz sedutora.
-- Verinha?
-- Ah... é você! - ela disse, perdendo a
pose.
-- Estava esperando o Mauro ligar?
-- Não esquenta ... Tá tudo bem?
-- Eu tive um sonho ruim outra vez. Estou
grilada. Preciso que me faça aquele favorzinho de novo.
-- Isso está ficando chato, Mari!
-- Eu sei, eu sei... Mas não suporto ficar
em dúvida.
Verinha levantou-se da cama, vestiu o
roupão e saiu do quarto, contrariada. Não desejava perder tempo com aquilo.
Renato estava enganando sua melhor amiga e ela não podia fazer nada! Já estava
cansada de ir espiar pela janela pra ver se o folgado já havia chegado da
noitada. Havia mentido sobre o comportamento dele nas outras vezes por pena da
amiga. Não queria fazê-la sofrer. Mas estava ficando cheia daquilo. Eles que
enfrentassem seus problemas.
-- Oi! - a voz de Verinha brotou de
repente, assustando Mariana.
-- E então? Ele ta dormindo que nem um
anjinho?
Silêncio.
-- O carro dele não está na garagem,
Mariana.
Ela ouviu com atenção e desligou o
telefone em estado de choque, sentindo-se enjoada. Ele havia mentido. Segundo
sua amiga, ele sempre mentira.
6. Armadilha
Lailah cortou a garganta da ave e misturou
o sangue que jorrava à estranha massa de aspecto repugnante que havia na
tigela. Depois, com mãos hábeis, trabalhou-a até que o líquido quente fosse
absorvido. Como uma artesã experiente, modelou-a, dando-lhe a forma desejada.
Finalmente admirou sua pequena obra.
Estava perfeita. Restava agora, o mais importante.
Subiu pela escada e, chegando à sala,
afastou as cortinas e abriu a janela. Sorriu, satisfeita. Uma linda lua cheia
brilhava no céu escuro. Fez uma reverência e sentou-se diante da janela para
meditar.
7. Surpresa
Mariana caminhava em direção à lanchonete,
distraída. Não dissera nada ao namorado para não criar um clima ruim entre
eles, para não brigar. Quem sabe tudo não passara de um engano. Será que sua
melhor amiga podia ter inventado uma fofoca apenas com intenção de criar
desarmonia entre eles? Bobagem, melhor esquecer tudo isso - ponderou, enquanto
caminhava até a lanchonete.
Estava com fome e desejava comer alguma coisa antes de voltar pra
casa. Mas seu apetite desapareceu ao ver o carro de Renato estacionado bem na
esquina. Num primeiro momento, ficou surpresa, feliz. Mas depois se lembrou de
que ele havia dito que não iria sair para nada, pois precisava preparar-se para
a prova. Então... O que significava o carro dele ali, parado? Imediatamente
começou a procurá-lo entre os rostos desconhecidos que estavam por ali, na
lanchonete. Nada! Quem sabe ele teria saído com um amigo, num outro carro, e
depois viesse buscar o seu. Sim, era isso.
Provavelmente – sussurrou a voz em sua cabeça.
No entanto, ele não lhe telefonara. Tudo
bem. Mariana iria esperá-lo em casa.
Ainda era cedo.
8. Descoberta
Já havia percorrido um quarteirão e meio
quando decidiu cortar caminho por uma ruazinha sossegada. Havia chovido, e a
rua tinha aquele aroma adocicado de terra molhada. Ao dobrar a esquina, estacou
espantada. Em seguida recuou para detrás de uma árvore. Seu coração batia
forte. A poucos metros dali rolava uma cena que ela jamais desejou ver
realmente. Renato e uma garota beijando-se. Apaixonadamente.
Seu primeiro impulso foi fugir dali,
correr para não sei onde, afastar-se dos dois. Mas uma estranha força fez
Mariana decidir lutar por seu amor. Ou seria o ódio? Agora, só a verdade prevaleceria.
Tudo o que pôde fazer foi caminhar até
eles.
9. Revelações
Vera olhava sua amiga, impressionada. No
lugar da doce e terna
Mariana estava alguém que ela não
conhecia.
-- Sabe o que ele falou quando me viu? Na frente dela? Que nosso namoro havia
acabado. Que ele se espantava por eu não ter percebido isso há mais tempo.
-- E o que você fez?
-- Fiquei parada lá, feito besta, com
vontade de esganar ele e depenar aquela galinha!
-- Graças aos céus que eu não tenho
namorado – disse Vera, assumindo um ar experiente.
-- Mas isso não fica assim... Não fica
mesmo!
-- Esqueça Mariana. Esqueça esse cara! É
tudo que você pode fazer!
Mariana levantou o rosto, num ímpeto de
fúria. Seus olhos brilhavam de modo assustador.
-- Você não me conhece, Vera. Eu não
esqueço certas coisas facilmente.
10. Encontro
Ela conferiu o número da velha casa.
Estava correto. Avançou, decidida. E tocou a campainha. Depois de algum tempo,
uma mulher de aparência exótica veio atender.
-- Oi! Eu telefonei... marcando hora.
-- Entre – disse a mulher, depois de
observá-la por um momento.
A sala era simples e estava iluminada pela
luz de velas. Um aroma doce, enjoativo, dominava o ambiente. O gato, de pêlo
negro e olhos verdes, examinou-a com desdém, antes de dar meia-volta e saltar
pela janela. Mariana sentou-se e esperou.
Lailah trouxe o baralho, envolto em um
xale negro. Antes de espalhar as cartas, fitou-a com interesse.
-- Quantos anos você tem?
-- Quinze... quase dezesseis.
-- Me dê sua mão.
Mariana estendeu o braço, trêmula.
-- A esquerda – ela corrigiu – A do coração...
Mariana sentiu um arrepio percorrer seu
corpo ao ser tocado por aquela estranha mulher.
-- Vejo muita energia aqui... – ela disse, observando as linhas e
sulcos da mão de Mariana. – Muita força de vontade também. Dinheiro está
chegando. Ah! Mas o coração...
Mariana retirou a mão, bruscamente.
-- Eu preciso de sua ajuda. Não quero
tirar a sorte ou saber o futuro. Eu preciso de... outro tipo de ajuda.
Os olhos da mulher brilharam, mas Mariana
nem percebeu. Não notou como as pupilas haviam se dilatado, como a respiração
dela tornara-se mais rápida.
-- Que tipo de ajuda, menina? – sussurrou
a mulher, interessada.
-- Eu
desejo me vingar.
Aquilo soou como música nos ouvidos de
Lailah.
-- Você não sabe o que está dizendo...
-- Sei exatamente o que estou dizendo –
afirmou Mariana.
Lailah avaliou a qualidade e a intensidade
de emoção que havia por detrás daquele olhar obstinado. Ficou feliz com o que
viu. O sentimento era poderoso e sombrio.
-- Vingança é coisa séria – ironizou, com
a intenção de testá-la.
-- Mentira também é – retrucou Mariana,
com ar feroz.
11. Ritual macabro
Lailah iniciou o trabalho ofertando a luz
das treze velas aos poderes da escuridão. Em seguida queimou as ervas sagradas
nos incensários, colocados nos quatros cantos do aposento. O relógio indicava o
início da noite.
A fumaça de odor adocicado elevou-se em
tufos vaporosos, espalhando-se como um nevoeiro sinistro.
-- Está preparada? – murmurou, segurando
as mãos de Mariana.
-- Sim, estou.
Então caminharam juntas em direção ao
círculo mágico. Lailah untou os dedos num líquido oleoso, tocou seu peito e o
de Mariana. O contato a fez arrepiar-se.
-- Que
o Senhor do Mal nos conceda o poder de atender nosso desejo.
Em seguida, Mariana a viu pegar uma
vasilha, colocar dentro dela a foto de Renato, um punhado de sal, outro de
areia e a mecha de cabelo - recordação que, por sorte, Mariana havia guardado
da época do trote na faculdade. Juntou, ainda, um punhado de terra negra e de
fragmentos de ossos.
-- Permita, senhor da Malvadez, fazer surgir o fogo que arderá como a
vontade inabalável desta sua serva!
Mariana fora instruída para acender uma
vela vermelha e aproximar a chama da fotografia. Num instante o fogo passou
para o papel brilhante, devorando as bordas e a imagem colorida.
-- Agora, concentre-se em sua dor, seus
motivos e diga a prece maldita enquanto o fogo queima – ordenou Lailah.
Mariana fechou os olhos e recordou o
momento em que flagrara Renato. Lembrou-se da expressão de descaso em seu
olhar, do riso cínico, das mentiras que ele contara, do quanto havia sido
enganada. O que ele merecia? O QUE ELE MERECIA???
-- Diga, Mariana, enquanto o fogo queima.
Mariana pegou o papel em que havia o dito
macabro. Lailah a convidara a escrever em tinta vermelha e depois assinar seu
nome, explicando que isso fazia parte do ritual. Suas mãos tremiam. Mariana
sussurrou:
“Senhor da vingança, escute meu pranto. Através do pecado serei sua
escrava. Esta chama em meu peito clama sedenta por vingança. Repare meu mal,
conceda-me o poder. Use o ódio que habita meu ser”.
Lailah disse palavras estranhas e passou a
vasilha às mãos de Mariana que soprou três vezes contra a fumaça e cuspiu sobre
as cinzas da fotografia.
-- Está feito.
Mariana estava muito abalada. Lailah
acompanhou-a até a porta, com aquele jeito misterioso que lhe era peculiar.
Antes de despedir-se disse:
-- Você ficará bem. Quero que aceite isto.
– E estendeu-lhe um delicado adorno em forma de coração. Era vermelho, com
cordão de veludo no mesmo tom.
-- Para mim? – perguntou Mariana,
surpresa.
-- Quando se adentra a outros mundos,
devemos ter certos cuidados, ter algum tipo de... proteção. Entende?
Mariana sentiu vontade de sumir dali e
esquecer o que havia feito. Mas percebeu que seria indelicado recusar um
presente. Principalmente se ele fosse dado por uma bruxa.
Mariana agradeceu e partiu rapidamente,
levando o pequeno adorno em seu pescoço.
A noite estava fria, o céu sem estrelas.
Lailah pegou o gato no colo e sentou-se na cadeira de balanço. Devia esperar
mais duas noites. Duas noites apenas a separavam do poder conquistado.
12. Para nunca mais
Mariana desceu do ônibus no ponto errado.
Estupidamente se distraíra e agora precisava caminhar por aquelas ruas escuras
até chegar em casa.
Sentia-se fraca, vazia, como se aquele
ritual tivesse roubado toda a energia
de seu corpo. Estava assustada, mas sentia-se bem melhor. Se houvesse uma lei,
que ela fosse resgatada para punir aquele que a fizera sofrer.
Apressou o passo, desejando chegar logo em
casa, deitar-se em sua cama e começar uma nova vida no dia seguinte. Nunca mais
desejava ver Renato. O seu amor por ele desaparecera tão completamente que até
ela estranhara.
Agora, nada mais importava. Ela já havia
encomendado sua vingança. Sorriu, secretamente. Ele que se entendesse com os
poderes do inferno.
Estava tão absorta em seus pensamentos que
atravessou a rua de cabeça baixa, como se seguisse uma linha imaginária traçada
no chão.
Não viu o carro atravessar a avenida em
alta velocidade, subir pela calçada e vir em sua direção.
Não teve tempo sequer de se arrepender.
13. O mal pelo Mal
Madrugada. Silêncio dos mortos.
O homem caminhou pelo cemitério, com a
sombra de seu corpo desajeitado arrastando-se por entre os túmulos. Não teve
dificuldade para localizar a campa da família, onde havia sido enterrado o
corpo da jovem, naquela manhã.
Abriu sua maleta e retirou os instrumentos
necessários. Ligou o pequeno farolete e golpeou suavemente a fechadura. O
trinco cedeu. Com um movimento firme, deslizou a tampa do caixão para o lado. A
garota ainda conservava uma expressão de espanto naquilo que havia sobrado de
seu rosto.
Sem demora, o homem começou o seu
trabalho.
Pouco tempo depois, Lailah recebeu do
homem a encomenda, exultante de alegria.
-- Venha – ela disse, e seguiram juntos
para o porão, muito emocionados para trocar palavras.
Já estava tudo preparado. Lailah desceu
pela abertura no chão e, antes de trancar-se, recomendou:
-- Cuide bem de meu gato. – e a portinhola
do alçapão fechou-se com um ruído.
Lailah abriu a caixa e transferiu o órgão
inerte para uma vasilha especial. Em seguida se cortou, pouco acima do pulso,
com a faca consagrada. O sangue do pequeno ferimento escorreu por sua pele
branca, caindo em gotas sobre a massa avermelhada de aspecto repugnante.
Lailah invocou os poderes mágicos enquanto
via o sangue penetrar suavemente pelos sulcos da carne endurecida, tornando-a
tenra e suculenta, a borbulhar misteriosamente.
Fervilhante de ódio. Clamando por vingança.
Como uma fera enlouquecida, Lailah
alimentou-se do coração que pulsava, maldito, trazendo-lhe a energia da vida
jovem por muitos anos mais.
Vingança. Um prato a ser saboreado frio.
Flávia Muniz dedica-se à literatura
fantástica para jovens e adultos, entre inúmeras outras atividades. Escreve
para sites e revistas de entretenimento. É autora de Viajantes do infinito,
Sallen 777 e Os Noturnos, entre muitos outros.
Veja aqui a entrevista com a autora
http://www.contonoturno.hpg.com.br/entrevista/flaviamuniz.html